Santidade perdida e restaurada
1. Introdução
O presente artigo pretende argumentar que Deus interviu para que a santidade do homem pudesse ser restaurada após a queda sem que sua própria santidade fosse comprometida. Para levar a termo esta pesquisa preliminar, se apresentam úteis as exposições de Gênesis 3 e Romanos 3.9-31. Por fim, é feita relação entre o processo de restauração da santidade perdida devido ao pecado original a partir dos termos dos pactos das obras e da graça.
2. A queda e suas consequências
A fim de entender como Deus executa a restauração da santidade do homem, é preciso entender a extensão e as consequências da queda, identificando o dano causado à santidade original do ser humano. Para este propósito, se faz necessária uma breve exposição do relato Mosaico da queda:
Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais. Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu. Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si. Quando ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim. E chamou o SENHOR Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi. Perguntou-lhe Deus: Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses? Então, disse o homem: A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi. Disse o SENHOR Deus à mulher: Que é isso que fizeste? Respondeu a mulher: A serpente me enganou, e eu comi. Então, o SENHOR Deus disse à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos; rastejarás sobre o teu ventre e comerás pó todos os dias da tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará. E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás. E deu o homem o nome de Eva a sua mulher, por ser a mãe de todos os seres humanos. Fez o SENHOR Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu. Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente. O SENHOR Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado. E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida. (Gênesis 3)
Pode-se identificar, nessa passagem, o surgimento de uma nova posição do homem quanto à santidade na qual ele fora criado. Ao terminar de criar o ser humano, o Senhor Deus conclui que sua obra era muito boa (Gn 1.31). O homem fora criado segundo a imagem de Deus e isto incluía a completa ausência do pecado. No entanto, um novo elemento surge neste quadro perfeito: o pecado. Para compreender como o pecado invade e destrói a santidade original do ser humano é necessária uma breve investigação de como se deu a queda de Adão e quais foram as suas consequências.
2.1. Um atentado à santidade (Gênesis 3.1-5)
O relato da queda se inicia com o diálogo entre a primeira mulher e a serpente, pintada como o “mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito” (Gn 3.1). À luz do Novo Testamento, entende-se que o próprio Satanás foi o tentador (Ap 12.9; 20.2). Utilizando-se de uma das boas criaturas de Deus, o diabo “instilou sutilmente uma mentira e retratou a rebelião como um meio inteligente, mas no fundo inofensivo de preservar os interesses da humanidade”[1].
A tentação de Satanás, na verdade se apresentou, em primeiro lugar, como um ataque à santidade do próprio Deus. Deus havia criado o homem e dito que sua obra era muito boa. Deus, sendo separado do mal, não mente. Dele somente procede a verdade. Satanás, no entanto, afirma que a raça humana fora criada com uma falha: a falta de conhecimento. Deus, ainda que afirmasse ser sua criatura excelente, mentia e assim, limitava as possibilidades humanas. Satanás, enquanto tenta, ataca a própria pessoa de Deus conforme deve ser entendida pelo homem. A serpente comete um atentado contra a veracidade de Deus.
Em segundo lugar, a tentação constituiu uma tentativa de destruição da santidade que Deus havia plantado originalmente no ser humano. Não apenas a veracidade de Deus é questionada, mas também a própria posição do homem em relação ao seu criador. A santidade original do homem envolvia tanto a separação deste do pecado quanto sua consagração para Deus. Ao incitar a rebelião na mulher, Satanás procura inverter esse quadro levando o homem a escolher ser separado de Deus e escravo do pecado. Ao propor igualdade com o Criador, a serpente propõe que o homem, na verdade, passe a ser o seu próprio deus.
O que Satanás faz é propor o pecado como alternativa superior ao propósito santo ao qual Deus havia destinado o homem. É preciso salientar, contudo, que não foi Satanás o autor do pecado original que contaminou toda a raça humana. Satanás sugeriu, mas foi o primeiro casal quem praticou o ato de desobediência, com consequências funestas para toda a raça humana.
2.2. Perda da santidade (Gênesis 3.6-10)
O texto prossegue narrando como o homem, caindo na tentação de Satanás, desobedeceu ao mandamento divino e, por conseguinte, perdeu sua santidade. Percebe-se que a visão da mulher muda. Antes, ela não parara para refletir sobre os atrativos do fruto proibido, mas agora ela olha para a árvore do conhecimento do bem e do mal e esta lhe parece “boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento” (Gn 3.6). A visão da mulher muda a partir da argumentação bem-sucedida de Satanás. A tentação externa ganha espaço nos desejos do coração da mulher, fazendo que a força decisiva para que a consumação do pecado seja interna. Ocorre a dinâmica descrita por Tiago em sua epístola: “… cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.” (Tg 1.14-15).
A partir daí, a queda é o próximo passo. A mulher come do fruto e o oferece ao seu marido que aceita e também come. Apesar de não estar narrado no texto, pode-se concluir que a mesma dinâmica interna ocorre em Adão também, levando-o ao pecado. E, imediatamente após a queda, o pecado já revela suas terríveis consequências. EM primeiro lugar aquilo que Deus criou para a sua própria glória e o desfrutar do homem passou a ser vergonhoso. No versículo 7 de Gênesis 3 pode-se observar como o homem passa se envergonhar da sua própria nudez, algo que antes não acontecia (Gn 2.25). O pecado deturpou a própria autoconsciência do homem. Uma vez que ele tornou-se pecador ele também se viu envergonhado.
A vergonha não foi a pior consequência da queda do homem. É observável a partir do versículo 8, que o homem se alienara de Deus. Deus o chama, mas ele foge temendo devido à sua nudez. Por escolha própria o homem se separou daquele que o criou para viver em santidade. Como lembra Charles Hodge, “… se Adão houvesse continuado em santidade, teria desfrutado daquela vida que flui do favor divino”[2], mas, uma vez que sua escolha foi por rejeitar sua própria santidade original, o homem passa a estar separado de Deus e destinado à morte.
2.3. O estado do homem sem santidade
A continuação do texto nos permite identificar o estado espiritual do homem alienado de Deus por consequência do pecado.
2.3.1. A corrupção do homem (Gênesis 3.11-13)
Em primeiro lugar, é perceptível que o ser humano perde a capacidade de ser honesto consigo mesmo. Ao ser inquirido por Deus sobre sua situação após a queda, Adão lança toda a culpa sobre a sua mulher. A mulher, por sua vez, culpa a serpente. Estas atitudes demonstram que o homem caído no pecado é incapaz de enxergar sua própria responsabilidade. A atitude de autojustificação é uma marca clara do homem pecaminoso. Ele precisa se provar justo a si mesmo, por isso, se cega à realidade do próprio pecado, negando-se a reconhecer o erro, diminuindo a gravidade de suas próprias ações ou culpando outros pelas suas transgressões. Este é o retrato mais claro do homem corrompido pelo pecado: Ele se torna alguém cego espiritualmente.
2.3.2. O juízo de Deus (Gênesis 3.16-19)
Outra clara consequência do pecado humano é retratada nos versículos 16 a 19 de Gênesis 3. O homem torna-se alvo do juízo de Deus. O Senhor profere palavras de condenação para a mulher e para o homem e esta condenação é extensiva ao restante da criação que também sofreria com o pecado humano.
Tudo isso é consequência do pecado e também expressão e confirmação da santidade de Deus manifesta pela aplicação da sua justiça sobre o pecador. Além de sofrer com sua própria corrupção, o homem também sofre com a aplicação da justiça de Deus contra o seu pecado.
2.4. A esperança do homem sem santidade
Apesar desta terrível situação do homem, a história da queda não deixa a humanidade sem esperança. Deus promete redenção e revela seu amor através da graça comum.
2.4.1. A promessa de vitória sobre o pecado (Gênesis 3.14-15)
A santidade do homem foi perdida devido ao pecado original. Deus, contudo, promete redenção. O versículo 15 é emblemático: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” A serpente, autora da tentação e também símbolo do próprio pecado que agora escraviza a humanidade, há de ser derrotada. O agente desta derrota será um descendente da mulher, ou seja, um ser humano. Tal promessa, expressa em termos de juízo contra o tentador, é um vislumbre do evangelho de Cristo Jesus, que apresenta um homem (que é também o próprio Deus) realizando a salvação dos homens através de sua vitória final contra o poder do pecado.
2.4.2. O amor de Deus manifesto pela graça comum (Gênesis 3.20-24)
Além da promessa da redenção final, Deus também provê para o homem um ambiente no qual ele pode usufruir, ainda que de forma limitada, do seu favor. A humanidade se multiplicaria como fruto da fertilidade de Adão e Eva, de forma que a mulher seria ainda sim mãe de toda a humanidade. Deus não retirou a vergonha consequente do pecado, mas providenciou roupas para eles. A morte, consequência direta do pecado, não se daria de modo instantâneo, mas o homem viveria de modo limitado, mesmo privado da árvore da vida[3].
Estas observações sobre o relato da queda devem servir para esclarecer como se deu a perda de santidade e também fornecer um deslumbre de esperança para a humanidade perdida. Esta esperança se confirmou em Jesus e sua obra salvadora em favor dos homens.
3. A justificação como restauração da santidade do homem
Na queda o homem perde a sua santidade. Assim, ele fica impedido de ser justo diante de Deus. Pelos padrões divinos nenhum homem pode ser considerado justo, a não ser um – Jesus Cristo (1 Jo 2.1). Sendo Cristo um homem perfeito e, ao mesmo tempo, um ser de dignidade infinita pôde ele satisfazer a justiça de Deus e também representar a humanidade como seu único redentor[4]. Por esta redenção Cristo restaura a santidade outrora perdida. Para compreender esta restauração, o quadro da justificação pintado por Paulo em Romanos 3.9-31 mostra grande utilidade:
Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.
Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.
Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.
Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei. É, porventura, Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios, visto que Deus é um só, o qual justificará, por fé, o circunciso e, mediante a fé, o incircunciso. Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei.
Nestes versículos, podem ser encontradas informações relevantes sobre o estado de impiedade do homem, sobre a intervenção salvadora de Deus e também a respeito da fé que é o instrumento pelo qual a salvação pode ser recebida e desenvolvida no homem.
3.1. A impiedade do homem
Paulo começa este trecho de onde Moisés terminou o relato da queda. Ele pinta um quadro no qual o homem está perdido, sem sua santidade original e sem esperança de reavê-la.
3.1.1. Sem santidade (Rm 3.9-18)
Paulo faz uma série de citações livres de trechos do Antigo testamento que afirmam a profunda corrupção da raça humana (Sl 14.1-3; 53.1-3; Ec 7.20; Sl 5.9; Sl 140.3; Sl 10.7; Is 59.7-8; Sl 36.1). Ele introduz esta sequencia de citações destacando que todos, tanto gentios quanto judeus, estão debaixo desta situação de corrupção (Rm 3.9). O estado da humanidade é tal que ninguém pode ser considerado legalmente justo, do ponto de vista divino. Isto é comprovado pelo comportamento perverso e ímpio da humanidade. Tal comportamento não é prerrogativa dos piores pagãos (Rm 1.18-31), mas também está presente, ainda que de forma mais velada ou interna em gentios ou judeus (Rm 2.1-3.8). Esta ausência de justiça leva à impiedade. Sendo Deus perfeitamente santo, não é possível para ele conviver com seres pecadores. Por isso há, devido ao pecado, um afastamento mútuo. Deus, sendo justo, se afasta dos homens por não poder tolerar a injustiça. O homem se afasta de Deus por estar de tal forma aprisionado ao pecado que não pode ter pelo seu Criador qualquer amor, respeito ou submissão verdadeiros. Este quadro revela a total ausência de santidade na raça humana.
3.1.2. Sem esperança própria (Rm 3.19-20)
Além de estar desprovido de santidade o homem natural também está completamente impedido de adquiri-la por quaisquer meios. Ainda que a Lei seja a expressão da santidade de Deus, ela se mostra condenatória para os homens, uma vez que é impossível o seu cumprimento total. “O pecado é a transgressão da lei” (1 Jo 3.4) e “qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Por isso Paulo pode afirmar categoricamente que todo o mundo é “culpável perante Deus” (Rm 3.19). Uma vez que é impossível ao homem cumprir a lei de Deus, a Lei passa a ser útil como instrumento de quebrantamento – “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.20).
3.2. A intervenção do Deus justo e justificador (Rm 3.21-26)
Uma vez estabelecido o quadro de depravação da humanidade, Paulo passa a explicar como Deus age para justificar pecadores. A Epístola aos Romanos trata especificamente de como Deus revela e doa sua justiça enquanto trabalha pela salvação do seu povo (Rm 1.16-17). O capitulo 3 ganha importância crucial no argumento do apóstolo uma vez que enfatiza e resume o que Paulo está procurando desenvolver de forma mais ampla em toda a carta que Deus permanece sendo justo enquanto justifica pecadores (Rm 3.26). Isto pode ser observado pelo uso das palavras gregas ligadas à justiça e justificação. Δικαιοσύνη (subst. fem. dikaiosynē, lit.: “justiça”) aparece 5 vezes apenas no capítulo 3 de Romanos (34 ocorrências na carta toda). Δίκαιος (adj. dikaios, lit.: “justo”) é usada por Paulo 2 vezes neste capitulo e 7 vezes na epístola. O verbo δικαιόω (dikaioō, lit.: “eu justifico”) pode ser lido 6 vezes no capítulo 3 e 15 vezes em toda a epístola. No total, a raiz é empregada 56 vezes em Romanos e 13 vezes no capítulo 3. A justiça de Deus e a justificação do homem pecador é o fio condutor desta seção da carta.
Do ponto de vista teológico, a definição de Wayne Grudem parece se encaixar bem no que Paulo está procurando demonstrar: “Justificação é um ato instantâneo e legal da parte de Deus pelo qual ele … considera os nossos pecados perdoados e a justiça de Cristo como pertencente a nós e … declara-nos justos à vista dele”[5]. Ou como John Stott comentou:
A justiça de (ou que provém de) Deus é uma combinação entre três elementos: o caráter justo de Deus, a sua iniciativa salvadora e a sua dádiva, que consiste em conferir ao pecador a condição de justo perante ele. Trata-se de sua justificação justa do injusto, a maneira justa como ele “justifica o injusto”[6]
A seguinte objeção pode ser levantada: “Como Deus pode permanecer justo e ainda justificar pecadores?” Esta é uma questão relevante. Há uma relação entre a ação de justificar (expressa pelo verbo dikaioō) e a ação condenada pelo texto de Provérbios 17.15: “O que justifica [qyZæÐdücam prtcp. hifil masc. sing. de qadAc] o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o SENHOR, tanto um como o outro.”. A sabedoria expressa neste versículo mostrar ser igualmente condenável inocentar o injusto e condenar o justo. Como Deus pode, então, justificar o pecador?
A resposta a esta objeção é dada por Paulo nestes versículos. O pecado humano não fica sem ser pago. Deus puniu justamente o pecado dos eleitos lançando-os todos sobre os ombros de Jesus, o sacrifício perfeito (Rm 3.25). Deus demonstrou sua justiça contra o pecado do homem, punindo-os em seu Filho. Jesus, tendo cumprido todas as exigências da Lei, pode assim oferecer, à parte das obras da lei e mediante a fé somente, verdadeira justiça, imputada por ele mesmo ao crente, pois aos homens seria impossível conquistá-la por seus próprios esforços. Deus não deixa de ser justo, pois pune as transgressões, porém considera todo aquele que crê em Cristo justo pelos méritos de seu Filho.
3.3. Fé: chave para a santidade (Rm 3.27-31)
Uma vez que a graça se manifesta totalmente separada de qualquer mérito ou ação humanos, Paulo destaca que não há base para qualquer orgulho. Tanto judeus quanto gentios estão debaixo do princípio que Paulo coloca de outra maneira em Efésios 2.8-9: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus não de obras, para que ninguém se glorie”. Uma vez que o único caminho possível para a salvação é a graça de Deus que pode ser recebida através da fé somente, ninguém pode se gloriar por ter conquistado a salvação, pois a mesma não se conquista apenas se recebe.
A fé anula a lei? Paulo diz que não. A fé confirma a Lei de maneira especial. A fé na verdade é parte da lei e, além disso, a fé é direcionada àquele que foi capaz de cumprir todas as obras da lei para que seus méritos nos fossem doados livremente. Uma vez que a fé salvadora aponta para Jesus, esta fé confirma que todas as prescrições da lei são derivadas de Deus e devem ser buscadas pelo crente como expressão da sua nova posição em Cristo. Conforme John Stott conclui, o que Paulo “… quer dizer, e irá aprofundar mais tarde, é que os crentes justificados que vivem de acordo com o Espírito satisfazem as justas exigências da lei ([Rm] 8.4; cf. 13.8,10)”[7].
4. A deturpação e restauração sob a ótica dos Pactos
A sistematização teológica dos pactos de Deus são de grande ajuda para o entendimento da relação existente entre a queda e a justificação. No Éden, o homem desfrutava de perfeita santidade. Ao ser justificado, o homem desfruta, do ponto de vista posicional, de perfeita santidade. Isto não significa dizer que o crente não peca, mas que ele já possui por direito a sua perfeita santificação e deve buscar expressar este direito adquirido por Jesus através de um caráter cada vez mais conformado ao de Cristo (Rm 8.29; 2 Co 3.18).
Sobre o estado original do homem Charles Hodge aponta o seguinte: “Havendo Deus criado o homem segundo sua imagem, em conhecimento, justiça e santidade, firmou com ele uma pacto de vida, sob condição de perfeita obediência, proibindo-o de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, sob pena de morte”[8]. Deus criou o homem em perfeita santidade, porém a permanência nesta posição dependeria da permanência em perfeita santidade. A santidade fora plantada por Deus no homem, mas sua manutenção estava condicionada à obediência ao mandamento de Deus. Chama-se de pacto (ou aliança) das obras o contrato firmado por Deus, envolvendo também o homem, no qual a condição era a obediência e a punição pela desobediência era a morte. Adão, portanto, tinha o poder de escolher entre o bem e o mal moral. Como a Confissão de Fé de Westminster (CFW) coloca: “O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder”[9].
Uma vez que Adão cometeu o pecado original, toda a raça tem sobre si o pecado imputado (ou culpa herdada) e também a natureza (ou inclinação) pecaminosa. Tais consequências incapacitam todos os seres humanos à santidade. Nas palavras da CFW:
O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso.[10]
Consequentemente, no que depende da capacidade humana, todos estão condenados a permanecerem alienados de Deus e à aplicação de sua ira justa.
No entanto, Deus providenciou, também de modo pactual, a remissão dos pecados. Tal pacto não mais poderia envolver a iniciativa humana, uma vez que, em Adão, toda a raça fracassara. Nesta nova aliança, Deus age em favor dos homens sem exigir nada deles, por isso, este novo contrato é conhecido como Pacto da Graça. Novamente Deus e os homens são as partes do contrato, porém, ao invés da obediência a condição desta aliança é a fé em Cristo Jesus. Àqueles que tem fé é garantida a vida eterna e o perdão dos pecados, sem as exigências da lei. Tratando dos pactos de Deus como o homem a CFW afirma:
O homem, tendo-se tornado pela sua queda incapaz de vida por esse pacto, o Senhor dignou-se fazer um segundo pacto, geralmente chamado o pacto da graça; nesse pacto ele livremente oferece aos pecadores a vida e a salvação por Jesus Cristo, exigindo deles a fé nele para que sejam salvos; e prometendo dar a todos os que estão ordenados para a vida o seu Santo Espírito, para dispô-los e habilitá-los a crer.[11]
Tanto o pacto da graça quanto o das obras estão presentes e vigorando em toda a história da redenção (Lv 18.5), ainda que seja impossível ao homem cumprir as normas do pacto das obras. “As Escrituras nada sabem de algum outro além de dois métodos de obter vida eterna: aquele que demanda perfeita obediência e aquele que demanda fé”[12].
Uma vez que o pecador se encontra debaixo do pacto da graça, ele declarado santo (separado para Deus) e possibilitado a viver e buscar a santidade progressiva, ou seja, a conformação gradual ao caráter de Jesus. Ainda mencionando os cânones de Westminster, podemos ter como correta a seguinte afirmação:
Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau.[13]
Deus possibilita, então a restauração do estado decorrente do descumprimento da aliança das obras através do termos do pacto da graça no qual toda a obra é realizado por Deus. Uma vez incluído na graça de Deus, o crente é capacitado a novamente escolher o bem. Deve ser esta a busca incessante de todos os que creram em Jesus, uma vez que para a santificação é que foram salvos (Ef 1.4; Rm 8.29; Ef 2.10).
5. Considerações finais
Este estudo procurou demonstrar que Deus interviu para que a santidade do homem pudesse ser restaurada após a queda sem que sua própria santidade fosse comprometida. Isto é observável através do relato da queda, no qual o homem outrora santo torna-se pecador e sofre sobre si todas as consequências deste novo estado. Também é clara a atuação justa de Deus em agir ativamente pela redenção da humanidade, punindo em seu Filho o pecado dos homens. Por fim, procurou-se estabelecer, a partir da perspectiva pactual, um fio condutor que permitisse compreender como a santidade do homem foi restaurada através da ação soberana de Deus, destacando-se os efeitos do processo queda-redenção na santidade posicional do homem e na expressão gradual desta.
Tal compreensão deve servir não apenas para uma melhor compreensão acadêmica do assunto, mas também como estímulo ao povo redimido por Jesus à uma nova vida expressa no cotidiano. A grandeza da intervenção divina na história destinada à desgraça do homem deve motivar os crentes à busca sincera e grata por santidade prática e ativa, abandonando-se tanto o antinomismo quanto o legalismo que acabam por menosprezar a graça de Deus na experiência do cristão.
[1] BÍBLIA de estudo NVI: nova versão internacional. São Paulo: Vida, 2003. p. 10.
[2] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 572.
[3] Pode-se perguntar qual é o significado da árvore da vida. Alguns podem pensar que ela se refere de modo tipológico a Jesus. Esta parece ser uma interpretação pouco provável do texto de Gênesis, pois as demais menções à arvore da vida não a relacionam a Jesus, mas sim a vida eterna em si. Em Apocalipse 2.7 a árvore da vida é colocada com uma benção decorrente da salvação e não como agente da salvação (cf. Ap 2.11, 17, 26-28; 3.5, 12, 21). Isto pode ser percebido de maneira ainda mais clara no capítulo 22 de Apocalipse no qual a árvore da vida aparece em clara distinção a Jesus (vv. 2, 14, 19 e contexto).
[4] Anselmo de Cantuária (1033-1109 a.D.) expressou muito bem este argumento em seu livro Cur Deus Homo a partir de uma ótica racional. Pode-se resumir assim a tese de Anselmo: Sendo o homem o autor do pecado, a pena do pecado deve ser cumprida por um homem. Porém, a punição da ofensa deve ser proporcional à dignidade do ofendido, por isso somente um ser de dignidade infinita poderia pagar o preço do pecado humano. Logo, apenas Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiros homem poderia pagar pelo pecado do homem, por ser, simultaneamente, humano e divino, representante de sua raça e também ser de dignidade infinita.
[5] GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999. p.604.
[6] STOTT, John R. W. A mensagem de Romanos. São Paulo: ABU Ed., 2000. p. 124.
[7] STOTT, John R. W. Op. Cit. p. 139.
[8] HODGE, Charles. Op. Cit. p. 571.
[9] CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER (1647). IX. II. Disponível em http://www.luz.eti.br/do_ confissaode westminster1647.html. Acesso em 23/08/2011.
[10] CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER (1647). IX III. Disponível em http://www.luz.eti.br/do_ confissaode westminster1647.html. Acesso em 23/08/2011.
[11] CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER (1647). VII III. Disponível em http://www.luz.eti.br/do_ confissaode westminster1647.html. Acesso em 23/08/2011.
[12] CHARLES, Hodge. Op. Cit. p. 571.
[13] CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER (1647). IX IV. Disponível em http://www.luz.eti.br/do_ confissaode westminster1647.html. Acesso em 23/08/2011.
Publicado em 02/09/2011, em Artigos e marcado como Cristo, evangelho, lei, Salvação, santidade, santificação, Teologia do pacto. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.




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