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Igreja: Coluna e baluarte da verdade
Como cristãos, devemos conhecer o que significa ser igreja. Paulo, escrevendo a Timóteo, qualifica a igreja como coluna e baluarte da verdade (1 Tm 3.15). Com as palavras coluna e baluarte, Paulo exibe a figura de uma construção que tem alicerces e estruturas. Sobre estas estruturas está erguida a verdade. O papel da igreja não é definir a verdade, mas sim exibi-la, exaltá-la e proclamá-la. É certo, porém, que, mesmo a igreja não sendo a dona da verdade, ela é a agência escolhida e preparada por Deus para a manutenção da verdade. Nas palavras de João Calvino:
A Igreja mantém a verdade porque, por meio da pregação, a Igreja a proclama, a conserva pura e íntegra, a transmite à posteridade… O silêncio da Igreja significa o afastamento e a supressão da verdade.
Visto que temos a responsabilidade de sustentar a verdade, resta saber o que Paulo quer dizer por verdade. Muito poderia ser dito a respeito do conceito de verdade, mas há um breve texto bíblico que explica de forma simples e clara o que é a verdade que a Igreja tem por responsabilidade sustentar:
Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. (João 14.6)
Jesus é a verdade. É isso que precisamos proclamar! Jesus Cristo, que pregou o evangelho, sendo ele próprio o assunto principal do evangelho, é o ponto focal da proclamação (kerigma) e da prática (praxis) da igreja. Muitas igrejas hoje têm reduzido o evangelho a um conjunto de programas, atividades, ou normas que podem até ser boas, mas não partem do princípio básico de que, pelo pecado, o homem está completamente afastado de Deus e que, através de Jesus, Deus restaura esse relacionamento rompido. Essa mensagem deve permear tudo o que fazemos ou falamos. Nossa missão é levantar a Cristo, para que todos possam vê-lo! Sendo assim, as nossas igrejas será verdadeiramente evangélica.
O jeito que não dá jeito

A cultura brasileira é muito ampla e os seus fatores positivos e negativos têm chamado a atenção de estudiosos das culturas e, no meio evangélico, principalmente dos missiólogos. Um fator especialmente polêmico é o famoso “jeitinho brasileiro”. Dar um jeito para passar pelas dificuldades, burlar regras, sempre dizendo que “ninguém vai ficar sabendo” já é algo considerado normal pela maioria dos brasileiros. Nós, cristãos evangélicos, às vezes nos permitimos envolver por esta influência cultural e muitas vezes entramos na “onda” do mundo e temos atitudes semelhantes a dos incrédulos.
Sabemos que o evangelho não é um destruidor de culturas, mas sabemos que os seus princípios estão acima de qualquer cultura. A Bíblia é um livro atemporal e divino, por isso transcende às mudanças que a sociedade possa tentar impor. Dentro do “jeitinho brasileiro” podemos identificar aspectos que vão de encontro a princípios bíblicos e, portanto, devem ser excluídos da prática de qualquer crente. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” 2 Tm 3.16.
O brasileiro sempre quer dar um jeito para passar por dificuldades. O problema está na maneira que ele faz isso. A Bíblia condena a desonestidade (Pv 10.2; 11.1; 13.11) e a mentira (1 Jo 2.21). Muitas vezes as conseqüências de atitudes desonestas são muito piores que as da verdade, mas a tendência do brasileiro (com o seu “jeitinho”) é tentar “sair pela tangente”. O povo de Deus tem que se afastar deste “jeito que não dá jeito” se quiser agradar a Deus e não envergonhar o evangelho.
Outro aspecto do “jeitinho brasileiro” é o desrespeito às autoridades. Alguns são tão rebeldes contra toda e qualquer regra que chegam ao ponto de cometer verdadeiros crimes só pelo prazer de infringir uma regra, sabendo que nenhuma punição lhe sobrevirá. Isso é totalmente contrário a Palavra de Deus que ordena ao crente não apenas a obediência às autoridades, mas também a honra (Hb 13.17; 1 Pe 2.13). Isso se aplica a qualquer tipo de regra imposta por autoridade competente, desde que não fira algum princípio bíblico direto.
Sem dúvida esse jeito brasileiro não dá jeito. Não dá jeito nos problemas mais graves que testemunhamos dia após dia em nosso país. A Bíblia condena a “malandragem” sendo ela traço cultural ou não. A igreja não pode se acomodar ao jeitinho. Nós devemos, portanto, nos abster de certas coisas, algumas delas pequenas aos nossos olhos, mas que não agradam a Deus, tais como: mentirinhas, meias-verdades, pequenas corrupções, trocas de favores, pirataria etc. Talvez tais atos, ao serem praticados, jamais sejam descobertos por qualquer pessoa, mas Deus sonda o nosso coração (Sl 139.1) e sabe tudo o que fazemos, para Ele não há segredo e a Ele daremos contas de tudo (Ec 12.14). Com Ele, o jeitinho brasileiro não dá jeito.
Sou Evangélico! E daí?!?
Introdução
Tantas pessoas hoje se dizem evangélicas. Na verdade está virando moda (ou já virou!) ser crente. A cada dia sai a notícia de mais um “ex-alguma-coisa” que se converteu, ainda que muitos deles continuem vivendo a mesma vida de antes.
Em meio a tudo isso, lemos a palavra “EVANGÉLICA” nas placas de nossas igrejas. É difícil de entender, mas se somos evangélicos e outros tantos que vivem uma vida dissoluta também… O que vem a ser evangélico afinal?! Essa questão deve ser debatida, pois alguns bons cristãos têm repudiado este termo bíblico, para evitar uma identificação indevida com movimentos estranhos aos ensinamentos da Palavra de Deus. Estas pessoas abrem mão da sua identidade doutrinária e histórica, quando deveriam lutar por ela, esclarecendo o que significa ser “evangélico”.
O adjetivo “Evangélico” é derivado do substantivo evangelho, que nada mais é do que a repetição quase que idêntica da palavra grega euangelion. Esse termo é derivado de outra palavra bem conhecida de todos nós: anjo. Isso mesmo! Euangelion é parente de angelos, que quer dizer mensageiro. Literalmente ela significa boa mensagem.
O conceito é muito freqüente no Novo Testamento. O verbo euangelizo ocorre 54 vezes no NT, enquanto o substantivo euangelion é usado 76 vezes no NT. A raiz ocorre 23 vezes nos Evangelhos, 17 em Atos, 76 vezes nas cartas paulinas, 4 vezes nas epístolas gerais e 3 vezes no Apocalipse.
Evangelho de Cristo
Antes de qualquer coisa precisamos pensar no evangelho como sendo o evangelho de Cristo: as boas novas que tem a Pessoa de Jesus Cristo como mensagem e como mensageiro principal. Cristo é tanto o agente quanto o conteúdo do evangelho. Quando o anjo anunciou o nascimento de Jesus ele disse aos pastores: “não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.” Lc 2.10,11. O nascimento de Jesus é uma boa notícia, não apenas pelo fato de ter nascido mais um profeta. Não era apenas um profeta que havia nascido, mas sim aquele para quem todas as profecias anteriores apontavam. Jesus Cristo, por ser o salvador da humanidade é o próprio conteúdo do evangelho. Logo, quando falamos evangelho de Cristo estamos nos referindo à notícia que não apenas é de Jesus, mas à maravilhosa mensagem sobre Jesus e que nos foi dada pelo próprio Jesus.
Tendo esse conceito em mente, vamos observar a exortação de Paulo aos crentes de Filipos que encontramos na carta aos Filipenses 1.27: “Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica;”.
Neste versículo o apóstolo Paulo ordena que os seus leitores vivam de modo digno do evangelho de Cristo. Interessante notar que aqui nada de especial há na ordem em si. Paulo simplesmente ordena que seus leitores vivam. O sentido desse verbo aqui é “levem a vida”. Parece uma ordem inútil se não fossem duas expressões: “somente” (Conforme a ARC; ARA: “acima de tudo”; NVI: “Não importa o que aconteça”) e “dignamente” (ARA: “por modo digno”; NVI: “de maneira digna”). Paulo estava dizendo que a única forma de viver admissível é aquela que é digna do Evangelho de Cristo. Há muitas maneiras de viver, mas a única que os leitores de Paulo deveriam admitir é a que pode ser considerada digna do evangelho de Cristo.
Ora, viver de modo digno do evangelho de Cristo é viver conforme o evangelho de Cristo. Para isso não é necessário parar de viver ou viver em “outro mundo”, mas viver a vida na terra sabendo que somos do Céu. Cristo é o conteúdo do evangelho, logo nós devemos imitá-lo em nossa maneira de viver. Além disso, ele deixou diversas ordens e promessas que devem ser vividas pelos seus discípulos. Uma dessas ordens é expressa de forma bem clara no restante do versículo que estamos lendo: “para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica;”. Nessas palavras, Paulo mostra a importância da unidade para que possa ser vivida a vida conforme o evangelho. Ele esperava que os crentes de Filipos estivessem sempre “firmes em um só espírito”, com um só ânimo, lutando juntos pela fé evangélica. Um bom exemplo prático de como viver de modo digno do evangelho de Cristo é este: viver buscando a unidade da igreja em torno da fé evangélica.
Evangelho de Salvação
“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego;” Romanos 1.16. Paulo tinha plena convicção de que a mensagem do evangelho não era apenas uma mensagem que mostrava Cristo como salvador, mas que ele era o veículo para a salvação. O próprio evangelho é poder de Deus para salvação. Deus opera seu grande poder através de algo que nós ouvimos e entendemos. Uma vez que se crê neste evangelho que é loucura para os homens, recebemos de Deus a sua salvação, comprada pelo seu Filho.
É por isso que Paulo mostra a Palavra de Deus como veículo necessário à conversão: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” Rm 10.17. Precisamos refletir um pouco sobre este tema. Paulo não quer dizer aqui que só se pode crer em Cristo na hora do Sermão pregado por um pastor. Nem tampouco ele quer dizer que só é convertido por Deus quem atende a um apelo. Na verdade Paulo está mostrando como a verdadeira conversão ocorre necessariamente como resposta ao evangelho que é pregado. Não há conversão emocionalista, ainda que muitas vezes o “crer” envolva alguma emoção. A fé é oriunda de um conhecimento básico que envolve pelo menos algum ensino bíblico acerca da majestade e santidade de Deus, a pecaminosidade e a miséria humanas e a redenção divina ministrada através de Cristo Jesus.
Não tentemos pregar um evangelho alheio a isso, tentando ser coniventes com as necessidades do “homem moderno”. Não tentemos pregar um evangelho que tem como centro afirmações como: “a Igreja é um lugar legal”; “Deus vai curar seus traumas” ou “Torne-se crente e todos os seus problemas irão acabar”. Muitas vezes tentamos trazer pessoas para a igreja sem lhes falar de pecado ou da condenação do inferno. É lógico que o amor deve atingir todas as partes do ser humano, mas devemos fazer isso conscientes de que “o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”.
Evangelho da Igreja
Por fim, precisamos entender o evangelho como o elemento originador da igreja. O evangelho que tem Jesus como mensagem e mensageiro e é poderoso para nos salvar também produz uma comunidade de pessoas que foi reunida pelo fato comum de crerem no conteúdo central do evangelho: a salvação operada em Jesus Cristo. O evangelho é central na vida da igreja, pois é seu conteúdo que nos ajuntou e é sua mensagem que nos mantém unidos. Toda igreja verdadeiramente cristã é evangélica, pois da mesma forma como o evangelho é poderoso para salvar indivíduos ele também tem poder para produzir a comunhão dos salvos em torno de uma só fé, que é a fé evangélica.
É por esta razão que toda a vida da igreja deve emanar do evangelho. Como podemos perceber na igreja primitiva, o evangelho exercia papel central em todas as ocasiões em que eles se reuniam: “E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo.” (At 5.42). E, mesmo quando a questão em torno do sustento das viúvas surgiu (At 6), os apóstolos permaneceram priorizando a proclamação da Palavra e a oração, pois entendiam que o evangelho constitui o fator essencial à igreja cristã. Do evangelho derivam as ações da igreja. Por causa da mensagem pregada e crida ocorreram (e ocorrem até hoje) batismos (At 8.12). Por causa do evangelho a igreja prega, louva, cumpre as ordenanças de Jesus e anuncia as boas novas aos perdidos. O evangelho é a seiva que mantém a igreja viva.
Conclusão
Não vamos negar nossa identidade. Somos evangélicos, pois estamos alicerçados na boa notícia da salvação operada por Deus em Cristo Jesus. Ser cristão é ser evangélico, pois foi através do evangelho que Deus nos revelou do seu poder para dar vida aos espiritualmente mortos. E, agora que recebemos vida pelo poder do evangelho de Cristo, vivamos de modo coerente com a nova vida que temos. Somos a igreja evangélica, recebemos o evangelho, vivemos o evangelho, proclamamos o evangelho. Que nenhum outro rótulo substitua esta verdade suprema!